Toda a Fúria, de Cara Hunter: vale a pena?

Um suspense sobre silêncio, credibilidade e o perigo de uma versão oficial chegar antes da verdade.

Esse foi meu terceiro encontro com Adam, o que significa que eu já deveria conhecer a Cara Hunter o suficiente para não confiar em absolutamente ninguém. Mesmo assim, comecei Toda a Fúria acreditando que desta vez seria diferente.

 Não foi.

Eu desconfiei de metade de Oxford, inventei teorias com convicção excessiva e fui novamente enganada da forma que mais gosto. Só que esse também é um livro mais pesado, porque transforma preconceito, silêncio e credibilidade em partes centrais da própria investigação.

CONTEXTO DA HISTÓRIA

Faith Appleford é encontrada ferida, assustada e em evidente estado de choque por um motorista que acredita ter acabado de socorrer uma adolescente sequestrada. A polícia é chamada, mas Faith e a família insistem que não existe crime para investigar. 

O problema é que o estado em que ela foi encontrada não combina com a versão que estão contando e, quanto mais tentam encerrar o assunto, mais difícil fica acreditar que aquilo foi apenas um episódio sem importância.

Sem a colaboração de Faith, Adam Fawley e sua equipe precisam investigar a partir das marcas, dos relatos incompletos e, principalmente, dos silêncios. Só que, antes que consigam entender o que aconteceu, outra adolescente desaparece em circunstâncias semelhantes.

Tá bom ou quer mais? Os dois casos reabrem uma investigação de quase vinte anos antes. O homem condenado por aqueles ataques sempre afirmou ser inocente, continua preso e está prestes a pedir liberdade condicional. Adam participou da investigação original e agora precisa enfrentar uma possibilidade que ninguém gostaria de considerar: e se eles encerraram aquele caso sem realmente resolvê-lo?

Toda a Fúria é o quarto livro da série Adam Fawley, depois de Onde Está Daisy Mason?, Em um Porão Escuro e Sem Saída. Cada volume apresenta um crime principal com resolução própria, então dá para começar por qualquer um. Agora, se você quiser acompanhar a história de Adam, da família e da equipe sem descobrir no meio do caminho que perdeu casamento, luto, culpa e mais algumas pequenas tragédias pessoais, vale seguir a ordem (vou deixar a sequência certinha na ficha).

ANTES DE CONTINUAR: TEMAS SENSÍVEIS E SPOILERS

Toda a Fúria aborda violência sexual, estupro, sequestro, violência contra adolescentes, transfobia, crime de ódio, exposição da identidade trans sem consentimento, uso do nome de registro como forma de violência, rejeição familiar, bullying, discurso de ódio, humilhação, morte e menções a suicídio. A investigação também reproduz comentários de fóruns com conteúdo transfóbico, violento e desumanizador. E aqui não é apenas alguém dizendo que esses comentários existem, a gente realmente lê parte deles no formato de publicações e respostas (alguns são pesados, então deixo esse aviso de verdade).

Se você só queria saber se consegue lidar com a leitura, pode fechar a resenha aqui sem medo de perder alguma informação essencial para decidir. A partir da próxima seção, vou falar sobre coisas que o livro revela gradualmente, incluindo a identidade de Faith, relações entre personagens, o caso antigo e a forma como certas informações mudam a investigação. Não vou contar quem fez o quê nem recontar o final inteiro, mas não existe uma maneira civilizada de conversar sobre essas camadas fingindo que elas não são spoilers.

DESENVOLVIMENTO DA HISTÓRIA E PERSONAGENS

Faith parece complexa antes mesmo de a gente conhecer todos os motivos do silêncio dela, e essa diferença é importante. Cara Hunter não esconde a personalidade para depois da revelação, como se Faith tivesse apenas a função de vítima. 

A gente tem uma personagem que passou CLARAMENTE por uma violência, mas que, por algum motivo, não quer abrir tantos detalhes para a polícia, enquanto a mãe e a irmã tentam impedir que ela fale mais sobre o assunto. E eu fiquei exatamente naquele lugar muito confortável de não saber se aquilo era proteção ou controle (confortável no sentido Cara Hunter da palavra, ou seja, nada confortável).

Eu desconfiei da mãe, desconfiei da irmã e desconfiei de que tudo pudesse ser ainda mais complicado, como se Faith ainda estivesse dentro de um sequestro, só que agora vetada dentro da própria casa. Mas quando a informação de que Faith é uma garota trans aparece, ela só adiciona uma camada a mais de sentido para tudo o que estava sendo construído, o que me fez analisar as situações, silêncios e proteções com outros olhares, um muito mais cuidadoso, devo dizer.

Faith não oferece à polícia o relato que uma investigação gostaria de receber, em um suspense menos cuidadoso, isso existiria apenas para fazer o leitor desconfiar dela. Aqui, o silêncio também aponta para uma questão maior: pessoas traumatizadas não precisam narrar o que viveram na ordem, no tempo e na linguagem que tornam a experiência mais fácil para quem observa.

O livro coloca a equipe diante de um limite real. Existe urgência para impedir outro crime, mas existe também uma jovem tentando recuperar algum controle sobre o que aconteceu. A polícia precisa de informação, a vítima não deve uma performance de dor que seja imediatamente reconhecível como verdadeira, essa tensão não tem uma solução limpa, e o desconforto faz parte da leitura.

É nesse ponto que Toda a Fúria deixa de ser apenas um quebra-cabeça. A pergunta não é só “quem fez isso?”. Também importa entender por que determinadas versões recebem credibilidade antes de outras e o que acontece quando o preconceito já decidiu qual história parece plausível.

Quando a identidade deixa de ser curiosidade e muda a investigação

IMPORTANTE AVISAR QUE a transfobia, a exposição da identidade de Faith sem consentimento, o uso do nome de registro, a rejeição e a possibilidade de um crime de ódio não aparecem isolados num discurso explicativo e depois desaparecem. Muito menos funcionam como uma camada exclusiva da Faith. Esses elementos interferem em quem escuta, em quem desconfia e no tipo de versão que cada pessoa está disposta a aceitar. Então o preconceito não está colocado ao lado da investigação. Ele modifica a investigação.

O livro procura mostrar a violência transfóbica como violência, não como curiosidade sobre uma personagem. Também expõe como o ódio virtual, a humilhação e a desumanização atravessam a vida concreta. Os comentários de fóruns tornam isso ainda mais direto, porque não estamos apenas sendo informados de que existe discurso de ódio. Nós o encontramos reproduzido na página, com a familiaridade assustadora de qualquer seção de comentários que passou tempo demais sem moderação e humanidade.

Existe um desconforto legítimo quando uma identidade marginalizada participa do mecanismo de ocultação de um suspense, pra mim, a leitura funciona porque Faith continua sendo entendida como uma pessoa atravessada por medo, família, desejo de controle e direito ao silêncio, não como uma revelação criada apenas para surpreender.

Também é importante separar o que os personagens dizem daquilo que a narrativa sustenta. Existem falas preconceituosas e violentas no livro, mas isso não significa que elas reflitam as opiniões da autora (personagem pode falar coisa errada, gente, e aqui a própria narrativa expõe essas falas como erradas). Ainda assim, minha percepção não substitui a experiência de leitores trans.

Tive a confirmação interna da Trama de que o livro passou por leitura sensível e consultoria de uma pessoa trans, o que reforça a existência de um cuidado específico com a representação e com a forma como esses temas atravessam a história. Isso não significa que todas as pessoas trans terão a mesma experiência com o livro, mas é uma informação importante para compreender o trabalho realizado durante o processo.

Sasha e a distância entre conhecer alguém e conhecer sua versão

Sasha amplia o círculo de suspeitos, mas sua função não termina aí, porque é através dela que aparecem suspeitas reais, novas linhas de investigação e aquela certeza muito específica dos adultos de que conhecem completamente uma adolescente porque ela contou algumas coisas em casa. A mãe de Sasha acredita conhecer a filha porque conhece a versão que circulava dentro da família, a investigação encontra tudo aquilo que não cabia nessa versão (e encontra coisa, viu?).

As amigas, a família e as pessoas ligadas a Sasha introduzem suspeitas reais e novas linhas de investigação, mas também repetem uma pergunta que já existia com Faith: quanto do que adultos dizem saber sobre uma adolescente vem da própria menina, e quanto vem da necessidade de acreditar que nada importante acontece fora do alcance deles?

Adam precisa reabrir um caso que o sistema preferia manter fechado

O crime de vinte anos antes importa para Adam porque Gavin Parrie nunca deixou que a condenação parecesse completamente encerrada. Ele sustentou a própria inocência, ameaçou Adam e transformou aquela certeza antiga numa porta que o detetive preferia manter fechada. Quando o mesmo modo de agir reaparece, Adam precisa enfrentar uma possibilidade pior do que o retorno de um criminoso: a de ter ajudado a condenar a pessoa errada.

Isso não transforma Parrie automaticamente num homem inocente em todos os sentidos, e essa diferença também importa, porque uma pessoa pode ser culpada de várias coisas terríveis e ainda não ser culpada especificamente pelo crime pelo qual foi julgada. Parece básico quando a gente escreve assim, mas dentro de uma instituição pressionada por tempo, opinião pública e necessidade de apresentar respostas, aparentemente o básico precisa ser lembrado.

Toda a Fúria também pergunta até onde existe interesse em solucionar um crime e em que momento começa apenas a necessidade de encerrá-lo, controlar a reação da população e apresentar uma versão convincente. 

Eu AMO como Cara Hunter não interrompe o caso para anunciar que agora teremos DESENVOLVIMENTO PESSOAL DO DETETIVE. A vida de Adam aparece misturada ao trabalho, como normalmente acontece quando alguém não pode guardar casamento, luto, medo e culpa numa gaveta antes de entrar numa cena de crime. As experiências dos livros anteriores afetam as escolhas dele sem transformar a investigação atual numa desculpa para revisitar o passado por vinte páginas (obrigada, Cara, sinceramente).

ESCRITA DA AUTORA

Sou fã da Cara, isso não é segredo, ainda mais depois de ter a oportunidade de conhecê-la pessoalmente na Bienal do Livro do Rio em 2025 (tem vídeo desse encontro aqui, porque é claro que tem). O que me deixa cada vez mais apaixonada é a forma como ela constrói as histórias. Cara não escreve livros simples de entender e resolver, mas também não complica a narrativa com o único objetivo de confundir o leitor, ela cria realmente uma experiência.

Ela não escreve casos simples de entender e resolver, mas também não complica a narrativa só para confundir. A história alterna investigação, interrogatórios, mensagens, reportagens, publicações e comentários de fóruns. 

Deixo aqui uma mensagem de carinho aos editores dos livros dela, porque as mudanças de fonte, a organização dos depoimentos, os recortes e os detalhes de diagramação tornam a leitura realmente imersiva, a gente não recebe apenas um relato do caso, parece que está mexendo no material da investigação junto com a equipe.

A sensação de assistir a uma série de TV vem da montagem, cada sequência sabe quando terminar e qual pergunta deve deixar aberta. Quando uma conversa parece finalmente organizar o caso, a cena seguinte apresenta uma mensagem, uma reportagem, um depoimento ou um detalhe capaz de abrir outra possibilidade, deixando SEMPRE aquela perguntinha: “e se eu entendi tudo errado e o suspeito for outra pessoa?”. No final, você tem 45 suspeitos, revogou a credibilidade de metade de Oxford e já inventou gente da sua cabeça, mas tudo bem, isso acontece (né, Cara? Acontece…).

Em alguns momentos, a quantidade de nomes, relações e hipóteses exige atenção, não é exatamente o livro ideal para abandonar por dez dias e depois voltar fingindo que você ainda lembra quem pertence a qual família, quem mentiu em qual depoimento e por que estava desconfiando daquela pessoa (você não lembra. eu também não lembraria). Ao mesmo tempo, essa densidade faz parte da diversão para quem gosta de montar teorias, voltar em detalhes e transformar a frase mais inocente da página em evidência.

Cara Hunter entende que um bom mistério não depende apenas de esconder informação. Às vezes, basta controlar a ordem em que a gente recebe fatos verdadeiros, uma pista apresentada depois altera completamente o significado de uma cena anterior, não porque a cena mentiu, mas porque ainda faltava contexto. O livro deixa a gente confortável numa hipótese, e esse conforto é perigoso, porque quanto melhor uma explicação parece funcionar, menos vontade temos de procurar aquilo que ela não consegue explicar.

MINHAS IMPRESSÕES

Gostei MUITO de Toda a Fúria, do mistério, da quantidade indecente de pessoas que entraram na minha lista de suspeitos e, principalmente, da sensação de reencontrar Adam sem encontrar exatamente o mesmo personagem do primeiro livro. A continuidade existe sem dominar o novo caso, e o novo caso consegue afetá-lo sem apagar tudo o que veio antes. Me deixa muito feliz ver essa construção sendo mantida depois de tantas histórias e personagens diferentes.

Faith foi a parte mais delicada da leitura para mim. Percebi cuidado na maneira como Cara Hunter constrói uma adolescente trans que não existe apenas para sofrer violência ou ensinar alguma coisa aos outros personagens. 

Para mim, Toda a Fúria vale a pena porque entrega um suspense policial MUITO envolvente, continua desenvolvendo personagens que eu já acompanhava e trata temas importantes sem desmontar o ritmo da investigação para explicar por que a gente deveria se importar. A história confia que a gente vai perceber sem nos tratar como burros, e a gente percebe (ou se surpreende com a resolução e volta mentalmente para reorganizar tudo, que também é uma forma de perceber atrasada. no meu caso, os dois).

PRA QUEM O LIVRO FUNCIONA:

Toda a Fúria funciona para quem gosta de suspense policial com investigação detalhada, vários suspeitos e capítulos curtos, para quem monta teorias durante a leitura e muda de ideia sem a menor dignidade, para quem gosta de séries em que os investigadores acumulam consequências pessoais (porque ninguém passa por isso tudo e volta ao trabalho na segunda-feira perfeitamente recuperado), para quem procura documentos, mensagens, reportagens e perspectivas diferentes e para leitores interessados em uma abordagem cuidadosa de identidade trans, transfobia e violência contra adolescentes dentro de uma trama criminal.

PRA QUEM TALVEZ NÃO FUNCIONE:

O livro pode não funcionar para quem prefere narrativas lineares com um único ponto de vista, para quem não gosta de procedimentos policiais e interrogatórios, para leitores que se incomodam com mudanças frequentes de formato, para quem costuma passar muitos dias longe de uma leitura com muitos nomes e relações (não recomendo testar a própria memória aqui), para quem procura um suspense leve ou confortável e para quem não quer acompanhar os temas sensíveis informados no início da resenha.

Ficha técnica

  • Título: Toda a Fúria
  • Autora: Cara Hunter
  • Título original: All the Rage
  • Série: Adam Fawley, volume 4
  • Editora brasileira: Trama
  • Tradução: Edmundo Barreiros
  • Ano da edição brasileira: 2026
  • Número de páginas da edição impressa: 424
  • ISBN: 978-65-81339-57-9